quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Não se reage é a uma abordagem policial

Um carro avançou em uma blitz na Zona Oeste do Rio de Janeiro, levando um dos policiais que participavam da operação a atirar, tentando furar um dos pneus. O disparo, porém, não acertou o alvo e acabou atingindo um dos ocupantes do veículo. O caso aconteceu no último mês de novembro (2015), o oficial foi detido, a arma apreendida para perícia e a cobertura da imprensa tratou como excessivo o uso da força. Afinal, não se justifica atirar num carro “apenas” porque ele desrespeitou uma ordem policial para parar.

Em Salvador, no dia 17 de janeiro, um marinheiro foi assassinado a facadas durante um assalto. Logo nas primeiras informações, falou-se em reação da vítima, versão que o criminoso confesso, depois de preso, ratificou. O bandido fez mais, declarando que não poderia ter agido diferente, pois “não se reage a um assalto”. A cobertura de um dos maiores jornais locais destacou exatamente o “aviso” do criminoso, colocando-o na capa da edição de hoje (20/01).

Esse duplo padrão de abordagem de nossa violência evidencia o quanto os valores sociais estão deturpados, verdadeiramente invertidos. Ele passa ao leitor das duas notícias uma mensagem clara: reagir a uma abordagem policial pode, a um assalto, não. É uma postura que vem sendo responsável por justificar a ação dos criminosos, jogando na vítima a culpa por ter sido morta, ao mesmo tempo em que demoniza a polícia, sobre a qual qualquer ação inicialmente é suspeita de abuso, mesmo que no estrito exercício regular de direito.

O relevante papel da imprensa precisa ser exercido com responsabilidade. A reação da vítima não é um habeas corpus automático para o criminoso e muito menos torna sua conduta legítima. Ao se transmitir a ideia contrária, há uma condenável absolvição moral de quem mata por qualquer razão, pondo o bandido como vítima e o cidadão – ao lado da polícia – como algoz.

Se é para não reagir em alguma situação, ela é durante uma abordagem policial. É a polícia que representa o Estado e é dele que podem vir as atuações repressivas e punitivas, jamais do criminoso, a quem não é dado punir alguém que simplesmente não aceitou ser roubado.

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