sábado, 23 de abril de 2016

Não é insensibilidade, é saturação

A imagem de dois corpos estirados na areia da praia, no Rio de Janeiro, enquanto um grupo de pessoas joga futebol, está correndo a Internet e escandalizando pela áurea de insensibilidade que transmite, como se os mortos não tivessem nenhuma relevância naquele cenário. A questão, contudo, não é de insensibilidade, mas de saturação. Neste país, corpos em locais públicos estão longe de ser algo raro, e o que não é raro não espanta.

São registrados no Brasil cerca de 60 mil assassinatos por ano, ou 164 por dia, quase sete por hora. No trânsito, morrem 40 mil pessoas ao ano, 109 por dia, mais de quatro por hora. É uma fábrica de cadáveres funcionando em ritmo acelerado, com elevado grau de produtividade.


Como resultado, corpos, numa constatação que beira o surrealismo, não são mais algo estranho nos cenários metropolitanos, sobretudo em nossos grandes centros, como o Rio de Janeiro. Não representam mais algo chocante, não têm o poder sequer de alterar a rotina das pessoas, que apenas olham e seguem suas vidas, o que pode significar jogar bola a apenas alguns metros de distância.

A dor, o choque e o inconformismo se reservam somente às pessoas próximas das vítimas, para quem o sofrimento não é amenizado por dados estatísticos. Ao menos por enquanto, pois é imprevisível a realidade para a qual estamos caminhando.

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sexta-feira, 15 de abril de 2016

Por que você é contra o desarmamento?

Há alguns dias, numa conversa informal com um amigo, o tema acabou descambando para as restrições ao acesso às armas, do que resultou uma pergunta tão simplesmente direta quanto intrincada. "Por que você é contra o desarmamento?", me indagou ele. Por uns instantes, fiquei preso à complexidade daquela resposta, já que os motivos são muitos, o suficiente para montar um livro (literal e concretamente), mas resolvi devolver a simplicidade: "porque não funciona", respondi, ciente de que aquilo dificilmente encerraria a conversa.

Obviamente, não encerrou e veio a réplica: "como você pode afirmar isso?". Aí, não havia mais jeito de manter a superficialidade. Perguntei a ele se estava com tempo, ele disse que só um pouco, e então tive que partir para uma conduta mais, digamos, incisiva - tanto quanto fria, o que me faz evitá-la ao máximo. Entreguei-lhe um exemplar do "Articulando em Segurança" que tinha no carro e indiquei o site do Cepedes, mas sem muita esperança de que fosse acessado - o meu amigo não é muito fácil de se desapegar de suas convicções, e, até então, acreditava que o desarmamento era algo positivo.

Hoje, fortuitamente, tive novo contato com ele. Para minha enorme satisfação, me disse que havia se convencido totalmente de que as políticas desarmamentistas são um grande erro e que isso fica inteiramente óbvio a quem para, um pouco que seja, e se dedica ao estudo do tema. E arrematou: "é claro que não funciona!".

Pois é. Foi o que eu havia dito...

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# Aos que queiram se inteirar mais sobre o assunto, faço duas indicações:

a) a primeira, obviamente, é o livro - www.articulandoemseguranca.com.br

b) a segunda é o vídeo da minha participação mais recente em audiências públicas na Câmara dos Deputados, na qual, no exíguo tempo de que dispunha, acabei sintetizando bastante o que penso sobre esse assunto:




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domingo, 3 de abril de 2016

Radicalizando a anticultura.

Até outro dia eu insistia em separar o talento dos artistas brasileiros de seus posicionamentos político-ideológicos, por mais tacanhos que fossem. Isso me permitia achar que Wagner Moura só fala besteira sobre política, mas não impedia que assistisse aos seus filmes. Também era possível entender que Chico Buarque é um ser extremamente hipócrita em sua postura ideológica e, ao mesmo tempo, ouvir suas músicas - Baticum povoou minha adolescência e esse "vírus" me acompanhava por diversos anos. Mas não dá mais.